O mundo revela suas verdades,
algumas fáceis, outras difíceis de compreensão e divulgação, vez que as pessoas
não estão acostumadas a perceber que a existência é propriedade do acaso, nave
desgovernada e atraída pelas leis do imponderável.
Xangô era um jovem saudável,
morava na Bahia e, Iansã uma criança linda, morava em Teófilo Otoni. Seus pais
resolveram sair de suas cidades, em um mês de janeiro de 1976, talvez,
levando-os para passar férias na Cidade Maravilhosa.

Acordado pelas recordação, com
vontade de revelar e registrar, Xangô fotografa o amanhecer e senta-se no
gabinete para sua providência literária.
O céu começa a perder suas
sombras, os pássaros se posicionam para mais uma alvorada, o mundo acorda e os
pensamentos são interrompidos pela rotina diária. Já se ouvem passos e falas.
Mais um dia de trabalho e Xangô
precisa lavar seu corpo cansado e marcado pelas suas experiências e atividades as
quais nem ele se recorda quantas.
É que no fim da tarde anterior,
após concluir algumas tarefas profissionais, Xangô foi testemunha de mais uma
absurda movimentação política visando a deposição da sua Presidenta, o que pode
ser visto pelo canal exclusivo da TV Senado.
A democracia ferida vai cedendo espaço para os pensamentos, e a
memória é assediada por desejos de felicidade, lembranças povoadas de sabores,
cores e sons.
A praia de Copacabana ficara
pequena para o desfile de Iansã, de biquine vermelho, caminhando do Posto 5,
até o Leme. As experiências e dificuldades de relacionamento da adolescente com
sua família eram reveladas, enquanto caminhavam exuberantes pela areia úmida.
Os depoimentos das testemunhas do
processo de impedimento presidencial são suspensos e Xangô sai de seu quarto
para beber água, enquanto atende telefonemas que revelam novos afazeres, para
corrigir as imperfeições naturais de uma sexta-feira, com poucas novidades boas.
Pisava na espuma fria, entre bolas
de frescobol, brinquedos coloridos arremessados pelas ondas contra os pés de
Xangô, exuberantes e apaixonados.
Entre um telefonema e outro, Xangô responde e-mails e mensagens no Whats
App, volta a assistir o drama veiculado no canal fechado, transportando-se ao
cenário triste da novela da vida, sem
cortes e comentários, realidade que
evolui envergonhada na sede do Senado Federal.
Os vendedores das garrafas
flexíveis do Splash, novidade da Kibon, anunciavam o suco de laranja mais
gelado do Brasil e as máquinas portáteis de Coca-Cola transformavam os
vendedores em verdadeiros “astronautas”, com suas roupas brancas, mochila de
aço reluzentes, pistolas nas extremidades das mangueiras, estas semelhantes aos braços do Robô histérico da
série “Perdidos no Espaço”.
O presidente da sessão de
julgamento demonstra maturidade e elegância ao tratar com os destemperados
senadores, alguns nervosos pela ameaça concreta ao projeto de governo operário,
os opositores, inimigos do diálogo sério e honesto, desejosos em assumir
definitivamente, por alguns meses, as prazerosas e eternas possibilidades do
uso do governo federal, para suspender as ameaças aos seus projetos de
recuperação patrimonial, por mais de 13 anos reduzidas pela distribuição de
renda imposta pelas filosofias políticas vigentes.
Ela aos catorze anos, pouco
conhecia das atrativas possibilidades da Cidade Maravilhosa, eis que vinda da
região das alterosas, rica, educada e muito bonita.
Na sua fala suave, exalada entre
lábios brilhantes, contornados pelas bochechas róseas, carregava o sotaque que
entoava e transformava em música as mais simples informações, frases e
interjeições.
Os pensamentos de Xangô, a
respeito do processo de impedimento da Presidenta do Brasil, deixavam
mais preocupações e tristezas ocuparem a área lógica do seu pensamento
que, em defesa, retomava visões de
prazer ,como num caleidoscópio de imagens do passado. É que a previsão de
retrocesso político, o fim das inclusões sociais, e os demais fatos
coincidentes provocavam o seu espírito combativo.
O calor fazia com que, entre um
sorvete, refrigerante ou refeição Iansã intercalasse banhos para resfriar os mais de 40 gráus de
desejo e juventude. Voltava sempre perfumada, vestida de suaves e finas
estampas, que deixavam marcadas as suas curvas e traços juvenis deslumbrantes, seus cabelos longos e dourados por sobre os
ombros descobertos, revelando as sombras dos trajes de banho, em tons sutis e
encantadores.
Veio a noite e Xangô dirigiu-se à
copa para alimentar-se e conversar sobre os fatos do dia. Revelou as
inquietações políticas a Oxum, registrou expectativas profissionais, comentou
sobre o ocaso de algumas esperanças, sorriu, sem lembrar que aquela refeição poderia ser algo sagrado e a ser
comemorado, face aos péssimos presságios.
Beijou, como sempre o fez, à
mesa, Obá. Afeto e respeito que interferem pouco na vida amorosa de Xangô, eis
que Obá não o vê como nos registros da religião africana, pois disputa
inconscientemente o espaço de afeto com
Oxum, além da distante e desconhecida Iansã.
Xangô retorna ao seu quarto,
agora desejoso do verdadeiro descanso, mas o efeito do café e a memória
irrequieta não permitiram o desligamento. É que Iansâ retornou ao seu
pensamento, agora numa sessão de cinema na Av. N.S. de Copacabana, na qual
Xangô sequer lembra o nome do filme. Ofegante e excitado, dirigiu e interpretou
durante a exibição, personagens apaixonados entre beijos e abraços, enquanto
que sua Iansã permaneceu provocante, silente e formosa, sentada ao seu lado,
talvez com muitas expectativas.
Canais se revezam por entre os
dedos de Xangô e as teclas do controle remoto, após dezenas de páginas e
minutos de leitura. As luzes foram reduzidas, os sons tornaram-se balbuciantes,
pensamentos intermitentes e recorrentes, até a escuridão do sono.
É que Iansã viajara para o
programa de intercâmbio, correspondia-se por cartas perfumadas e revelava
maturidade e equilíbrio de uma princesa adulta e ciente do reinado que iria
ocupar.
Na Bahia, com saudade, Xangô
demonstrava algum conhecimento da língua inglesa, e seguia respondendo e escrevendo
cartas, copiando letras das músicas da época, seduzindo Iansã.
Sem conseguir dormir, Xangô
resolve tomar banho, massageia-se, toca o seu corpo, respira o vapor d’água
gerado pela água quente. Não esqueceu dos detalhes das viagens para
encontrar Iansã, na Rua Bahia, principalmente
em um inverno que esfriou Belo Horizonte.
É que Xangô foi escolhido para
coletar assinaturas em Livro de Registro de Atas das reuniões do Conselho de
Administração, estas da empresa na qual trabalhava, passados mais de 10 anos do
retorno de Iansã, da América do Norte. O guerreiro conseguiu cumprir sua missão
e, sem pestanejar, modificou a passagem pegando uma Ponte Aérea do Galeão para Belo Horizonte.
O Canal Brasil apresentava agora
um filme nacional Jubiabá, roubando a atenção do guerreiro e destruindo suas
lembranças, fazendo com que Xangô relaxe e cochile, entre travesseiros, óculos,
livro e controle remoto.
Chegando em Belo Horizonte, após
trocar uns telefonemas, Xangô segue para um restaurante típico – Tia Lucinha,
janta com Iansã, ela noivando, que atordoada não escondia sua emoção, mas
evitava os carinhos mais intensos.
Os gritos de Jubiabá acordam
Xangô, destroem a ordem dos fatos, e os remete às cenas dos primeiros beijos.
Molhados, ingênuos e o aparelho ortodôntico machucando a boca ávida do
guerreiro Xangô.
As companheiras Oxum e Obá,
desavisadas, subiram do jantar para o quarto em separado, deixando Xangô sofrer
isolado com a companhia sôfrega dos seus desejos e pensamentos.
Vivem isolados e afastados há quase
33 anos. É que em dezembro de 1983, numa noite próxima ao Natal, Xangô esteve,
pela última vez, na Rua Bahia e, depois de muitos beijos e abraços apertados e
ofegantes, no quarto da TV, no chão de tacos coberto por um tapete marrom,
Iansã permitiu ser amada por Xangô, revelando em ambos uma paixão e carinho
arrebatadores.
Foram horas de carícias e afeto.
Isolados dos demais familiares de Iansã – irmã e mãe – retirados de cena, os
apaixonados jovens conheceram seus corpos, seus pelos e ritmos.
O calor e a frequência cardíaca
acorda novamente Xangô, que levanta e desce para beber um copo d’água, para repor
o que perdera em seu suor, enquanto sonhava.
Acordado, Xangô lembra o
semblante de Iansã, sentada nua em seu colo, abraçada e envolvida pelos músculos
morenos do seu baiano. É que os corpos entrelaçados, o ritmo frenético e a
fisionomia de prazer, o semblante da guerreira Iansã, pernas envolvendo e
conquistando o seu território, são frações de imagens sensuais inesquecíveis.
Ela estava noiva e ele também.
Ela disse que iria terminar sua relação, mas ele não poderia dizer o mesmo. Sua
boca continuava molhada, agora sem aparelho.
Estava, Xangô, de casamento
marcado para ocorrer em poucos dias.
Amaram-se, conheceram-se pelos
cinco sentidos, na penumbra de uma madrugada na Rua Bahia. O frio fez Xangô
tremer e se cobrir com o tapete, juntos, nus e abraçados, após uma noite
emblemática da verdadeira e inesquecível paixão.
A história é verdadeira e o amor
permanece, revela-se em pequenas frases ou curtidas em redes sociais.
Até hoje Xangô dorme em companhia
de Iansã, Oxum e Obá. A primeira ocupa a sua memória, como uma psicose do bem,
um desejo, uma paixão indestrutível.
Oxum e Obá ignoram, não sofrem por
ciúmes, enquanto Xangô esgota suas energias com a impossibilidade do reencontro,
nas suas dilaceradas recordações, e deve importunar o sono de Iansã, pelas vibrações
dos tambores da solidão, sem desejar, contudo, o seu mal, pois é apenas amor de
um baiano guerreiro.
Já Iansã tem a sua história
guardada.
Assim que soubermos de algo
iremos escrever o segundo capítulo desta História de Amor.