sábado, 27 de agosto de 2016

Dilaceradas Recordações

O mundo revela suas verdades, algumas fáceis, outras difíceis de compreensão e divulgação, vez que as pessoas não estão acostumadas a perceber que a existência é propriedade do acaso, nave desgovernada e atraída pelas leis do imponderável.
Xangô era um jovem saudável, morava na Bahia e, Iansã uma criança linda, morava em Teófilo Otoni. Seus pais resolveram sair de suas cidades, em um mês de janeiro de 1976, talvez, levando-os para passar férias na Cidade Maravilhosa.
Acordado pelas recordação, com vontade de revelar e registrar, Xangô fotografa o amanhecer e senta-se no gabinete para sua providência literária.
O céu começa a perder suas sombras, os pássaros se posicionam para mais uma alvorada, o mundo acorda e os pensamentos são interrompidos pela rotina diária. Já se ouvem passos e falas.
Mais um dia de trabalho e Xangô precisa lavar seu corpo cansado e marcado pelas suas experiências e atividades as quais nem ele se recorda quantas.
É que no fim da tarde anterior, após concluir algumas tarefas profissionais, Xangô foi testemunha de mais uma absurda movimentação política visando a deposição da sua Presidenta, o que pode ser visto pelo canal exclusivo da TV Senado.
A democracia ferida  vai cedendo espaço para os pensamentos, e a memória é assediada por desejos de felicidade, lembranças povoadas de sabores, cores e sons.
A praia de Copacabana ficara pequena para o desfile de Iansã, de biquine vermelho, caminhando do Posto 5, até o Leme. As experiências e dificuldades de relacionamento da adolescente com sua família eram reveladas, enquanto caminhavam exuberantes pela areia úmida.
Os depoimentos das testemunhas do processo de impedimento presidencial são suspensos e Xangô sai de seu quarto para beber água, enquanto atende telefonemas que revelam novos afazeres, para corrigir as imperfeições naturais de uma sexta-feira, com poucas novidades boas.
Pisava na espuma fria, entre bolas de frescobol, brinquedos coloridos arremessados pelas ondas contra os pés de Xangô, exuberantes e apaixonados.
Entre um telefonema e outro,  Xangô responde e-mails e mensagens no Whats App, volta a assistir o drama veiculado no canal fechado, transportando-se ao cenário triste da novela da vida,  sem cortes e comentários,  realidade que evolui envergonhada na sede do Senado Federal.
Os vendedores das garrafas flexíveis do Splash, novidade da Kibon, anunciavam o suco de laranja mais gelado do Brasil e as máquinas portáteis de Coca-Cola transformavam os vendedores em verdadeiros “astronautas”, com suas roupas brancas, mochila de aço reluzentes, pistolas nas extremidades das mangueiras, estas  semelhantes aos braços do Robô histérico da série “Perdidos no Espaço”.
O presidente da sessão de julgamento demonstra maturidade e elegância ao tratar com os destemperados senadores, alguns nervosos pela ameaça concreta ao projeto de governo operário, os opositores, inimigos do diálogo sério e honesto, desejosos em assumir definitivamente, por alguns meses, as prazerosas e eternas possibilidades do uso do governo federal, para suspender as ameaças aos seus projetos de recuperação patrimonial, por mais de 13 anos reduzidas pela distribuição de renda imposta pelas filosofias políticas vigentes.
Ela aos catorze anos, pouco conhecia das atrativas possibilidades da Cidade Maravilhosa, eis que vinda da região das alterosas, rica, educada e muito bonita.
Na sua fala suave, exalada entre lábios brilhantes, contornados pelas bochechas róseas, carregava o sotaque que entoava e transformava em música as mais simples informações, frases e interjeições.
Os pensamentos de Xangô, a respeito do processo de impedimento da Presidenta do Brasil,  deixavam  mais preocupações e tristezas ocuparem a área lógica do seu pensamento que, em defesa, retomava  visões de prazer ,como num caleidoscópio de imagens do passado. É que a previsão de retrocesso político, o fim das inclusões sociais, e os demais fatos coincidentes provocavam o seu espírito combativo.
O calor fazia com que, entre um sorvete, refrigerante ou refeição Iansã intercalasse  banhos para resfriar os mais de 40 gráus de desejo e juventude. Voltava sempre perfumada, vestida de suaves e finas estampas, que deixavam marcadas as suas curvas e traços juvenis deslumbrantes,  seus cabelos longos e dourados por sobre os ombros descobertos, revelando as sombras dos trajes de banho, em tons sutis e encantadores.
Veio a noite e Xangô dirigiu-se à copa para alimentar-se e conversar sobre os fatos do dia. Revelou as inquietações políticas a Oxum, registrou expectativas profissionais, comentou sobre o ocaso de algumas esperanças, sorriu, sem lembrar que aquela  refeição poderia ser algo sagrado e a ser comemorado, face aos péssimos presságios.
Beijou, como sempre o fez, à mesa, Obá. Afeto e respeito que interferem pouco na vida amorosa de Xangô, eis que Obá não o vê como nos registros da religião africana, pois disputa inconscientemente o espaço de afeto com  Oxum, além da distante e desconhecida Iansã.
Xangô retorna ao seu quarto, agora desejoso do verdadeiro descanso, mas o efeito do café e a memória irrequieta não permitiram o desligamento. É que Iansâ retornou ao seu pensamento, agora numa sessão de cinema na Av. N.S. de Copacabana, na qual Xangô sequer lembra o nome do filme. Ofegante e excitado, dirigiu e interpretou durante a exibição, personagens apaixonados entre beijos e abraços, enquanto que sua Iansã permaneceu provocante, silente e formosa, sentada ao seu lado, talvez com muitas expectativas.
Canais se revezam por entre os dedos de Xangô e as teclas do controle remoto, após dezenas de páginas e minutos de leitura. As luzes foram reduzidas, os sons tornaram-se balbuciantes, pensamentos intermitentes e recorrentes, até a escuridão do sono.
É que Iansã viajara para o programa de intercâmbio, correspondia-se por cartas perfumadas e revelava maturidade e equilíbrio de uma princesa adulta e ciente do reinado que iria ocupar.
Na Bahia, com saudade, Xangô demonstrava algum conhecimento da língua inglesa, e seguia respondendo e escrevendo cartas, copiando letras das músicas da época, seduzindo Iansã.
Sem conseguir dormir, Xangô resolve tomar banho, massageia-se, toca o seu corpo, respira o vapor d’água gerado pela água quente. Não esqueceu dos detalhes das viagens para encontrar  Iansã, na Rua Bahia, principalmente em um inverno que esfriou Belo Horizonte.
É que Xangô foi escolhido para coletar assinaturas em Livro de Registro de Atas das reuniões do Conselho de Administração, estas da empresa na qual trabalhava, passados mais de 10 anos do retorno de Iansã, da América do Norte. O guerreiro conseguiu cumprir sua missão e, sem pestanejar, modificou a passagem pegando uma Ponte Aérea  do Galeão para Belo Horizonte.
O Canal Brasil apresentava agora um filme nacional Jubiabá, roubando a atenção do guerreiro e destruindo suas lembranças, fazendo com que Xangô relaxe e cochile, entre travesseiros, óculos, livro e controle remoto.
Chegando em Belo Horizonte, após trocar uns telefonemas, Xangô segue para um restaurante típico – Tia Lucinha, janta com Iansã, ela noivando, que atordoada não escondia sua emoção, mas evitava os carinhos mais intensos.
Os gritos de Jubiabá acordam Xangô, destroem a ordem dos fatos, e os remete às cenas dos primeiros beijos. Molhados, ingênuos e o aparelho ortodôntico machucando a boca ávida do guerreiro Xangô.
As companheiras Oxum e Obá, desavisadas, subiram do jantar para o quarto em separado, deixando Xangô sofrer isolado com a companhia sôfrega dos seus desejos e pensamentos.
Vivem isolados e afastados há quase 33 anos. É que em dezembro de 1983, numa noite próxima ao Natal, Xangô esteve, pela última vez, na Rua Bahia e, depois de muitos beijos e abraços apertados e ofegantes, no quarto da TV, no chão de tacos coberto por um tapete marrom, Iansã permitiu ser amada por Xangô, revelando em ambos uma paixão e carinho arrebatadores.
Foram horas de carícias e afeto. Isolados dos demais familiares de Iansã – irmã e mãe – retirados de cena, os apaixonados jovens conheceram seus corpos, seus pelos e ritmos.
O calor e a frequência cardíaca acorda novamente Xangô, que levanta e desce para beber um copo d’água, para repor o que perdera em seu suor, enquanto sonhava.
Acordado, Xangô lembra o semblante de Iansã, sentada nua em seu colo, abraçada e envolvida pelos músculos morenos do seu baiano. É que os corpos entrelaçados, o ritmo frenético e a fisionomia de prazer, o semblante da guerreira Iansã, pernas envolvendo e conquistando o seu território, são frações de imagens sensuais inesquecíveis.
Ela estava noiva e ele também. Ela disse que iria terminar sua relação, mas ele não poderia dizer o mesmo. Sua boca continuava molhada, agora sem aparelho.
Estava, Xangô, de casamento marcado para ocorrer em poucos dias.
Amaram-se, conheceram-se pelos cinco sentidos, na penumbra de uma madrugada na Rua Bahia. O frio fez Xangô tremer e se cobrir com o tapete, juntos, nus e abraçados, após uma noite emblemática da verdadeira e inesquecível paixão.
A história é verdadeira e o amor permanece, revela-se em pequenas frases ou curtidas em redes sociais.
Até hoje Xangô dorme em companhia de Iansã, Oxum e Obá. A primeira ocupa a sua memória, como uma psicose do bem, um desejo, uma paixão indestrutível.
Oxum e Obá ignoram, não sofrem por ciúmes, enquanto Xangô esgota suas energias com a impossibilidade do reencontro, nas suas dilaceradas recordações, e deve importunar o sono de Iansã, pelas vibrações dos tambores da solidão, sem desejar, contudo, o seu mal, pois é apenas amor de um baiano guerreiro.
Já Iansã tem a sua história guardada.

Assim que soubermos de algo iremos escrever o segundo capítulo desta História de Amor.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Fogueira está Queimando

As comunidades são formadas por pessoas, seus hábitos, os determinismos geográficos, a cultura, as necessidades básicas e suas consequências antropológicas.
Nós, nordestinos e com grande influência portuguesa, temos grande apego à época junina, dadas as peculiaridades regionais, o início das chuvas e dos plantios.
Neste momento, a expectativa é de plantio de novas sementes...
Aguardamos o desenrolar dos processos de apuração de fatos absurdos, de fatos falsos, de outros verdadeiros... como um semear de novas colheitas.
Das pesquisas e investigações iniciadas com segundas e terceiras intenções, outras que apurarão a realidade histórica, necessária, previsível.
Ouviremos os estampidos dos fogos de artifício, as cores dos cenários criados para impressionar os incautos, e saberemos das queimaduras produzidas pelos artefatos que produziram as "não conformidades", as vítimas e os autores das malfadadas manobras.
Ao pé da fogueira, ouviremos notícias do sul maravilha determinando condutas em socorro da realidade, entre um gole e outro de licor, entre um milho assado e uma pamonha cozida, elaborada com amor e carinho, com grãos transgênicos obtidos das irrigadas fazendas do cerrado, enquanto choramos a seca da nossa caatinga e sertão.
Que bom seria se nas redes somente chegassem notícias boas, estimulando a nossa produtividade, avisando que é possível crer nos homens, divulgando eventos nobres, sérios, úteis...
Mas a nossa realidade hoje é dos espetáculos e das pessoas que querem ser celebridades por alguns momentos, divulgando informações forjadas, mentiras, falsidades, opiniões sem limites e sem conteúdo científico.
Espero que este São João encerre com poucas pessoas mais tristes e mais descrentes de que o nosso país seguirá, das cinzas ao novo florescer, retomando o rumo da inclusão, separando-se os maus dos de boa vontade!
Viva São João!

sábado, 14 de maio de 2016


EXAURIDOS OS ARGUMENTOS

Sou testemunha viva do crescimento econômico desordenado do meu País, e de suas consequências, como desmatamentos, degradações dos rios, adensamento populacional, falta de estrutura, escassez de empregos, má distribuição de renda, falta de habitações, inaptidão político-econômica para implantar escolas, hospitais, creches, reduzir as distâncias entre as comunidades ricas e as minorias,etc, falta de amor sincero, pela pátria.

Presenciei a evolução política do país, a chegada da Democracia e suas repercussões internas e externas, esquecendo a Ditadura e gozando com o movimento das “Diretas Já”, marco zero dos debates e discussões sobre o direito das minorias.

Acompanhei o impedimento de Collor, forçado pelos partidos de oposição, mas percebi alguns benefícios decorrentes do governo deposto, notadamente pela abertura das fronteiras, permitindo a globalização e a invasão do mercado interno com produtos de tecnologia, e posteriormente pelas atitudes praticadas pelo seu sucessor, Itamar Franco, recuperando a economia.

Vibrei com as vitórias operárias nas urnas, nestes últimos 13 anos. 

Em todas as metrópoles algo foi conquistado em benefício do trabalhador, dos sem teto, melhorando a distribuição de renda e dando acesso aos negros, índios, pobres, enfim, aos serviços e benefícios que o país estava produzindo, inclusive escolas, faculdades, atendimento médico, alimentos, através das bolsas ou dos programas de inclusão, retirando os menores das ruas, bares e semáforos, inundando de minorias os aeroportos, escolas, lojas, parques, shoppings, shows, etc.

Gostei de participar dos avanços de inclusão das minorias, aumento de residências próprias financiadas e subsidiadas, aumento histórico do número de empregos, ampliação de vagas nas escolas e faculdades, das cotas para as minorias, da construção e reforma de hospitais, escolas, creches, obras de infra-estrutura, estádios, estradas, ferrovias, barragens, e dos conselhos comunitários, onde os debates são mantidos e incentivados, colocando as comunidades dos excluídos em posição de atuação mínima, esta "cultura' de diálogo oriunda dos movimentos dos trabalhadores. 

Muitos de nós reclamaram das ruas cheias de veículos, aeroportos e aviões lotados de novos passageiros, destruindo o glamour, reduzindo privacidade e espaço,  antigos usuários tendo que compartilhar  e dividir os momentos de felicidade com os novos "abastados".

As conquistas do povo foram muitas e tantas, nesta última década, que a reeleição de Dilma não foi aceita. 

Por falha de informação, por culpa ou dolo, as promessas de campanha não tiveram espaço para concretização, por sabotagem ou impossibilidade inata, fragilizando e sangrando o governo.

Pediram recontagem, tentaram anular o pleito e por fim, exauriram a economia, pararam o Brasil para impedir Dilma de prosseguir.
O momento é de mudanças perigosas, pois o que move esta alteração de rumo é a falta de argumentos verdadeiros.

A vida tem que avançar, contudo.

Hoje testemunho o ápice de manobra político-jurídica, mal montada, revelando interesses claros de usurpação de poder, pela oposição e parte dos aliados, em revanche ao resultado das eleições, manobra contrária à intransigência e firmeza de posturas de Dilma, algumas desastrosas é verdade.

Sofro em perceber as traições, a injustiça, o conluio envolvendo descontentes úteis, os quais apedrejam o governo com as mesmas mãos sujas que elegeram e guindaram desonestos e falsos moralistas, todas estas atividades em nome de seletivo combate à corrupção.

Ouço os gritos de resistência, mas reflito sobre a necessidade de unirmos melhor nossas energias para praticarmos condutas inclusivas, combatermos tais erros com educação, ciência e reflexão, denunciarmos as fraudes, elegermos melhores representantes em todas as esferas, e fazermos o Brasil retomar seu caminho, avançando e melhorando as oportunidades de emprego, aumentando a distribuição de renda, reduzindo as nossas falhas e erros através do diálogo, tudo em nome da sustentabilidade nacional.

Estes "avanços" tenderão a atrasar nossa trajetória inclusiva, dada a pressão dos incautos que promoveram a revanche, vez que as suas motivações são completamente opostas às que norteiam a conduta dos representantes do povo, no governo afastado.

A visão dos que chegam agora não privilegia o interesse dos mais fracos, das minorias, dos sem teto, sem saúde, sem futuro. Pelo contrário!
Estas minorias declararão, em momento próximo, o quanto o país perdeu com esta desleal manobra pelo poder!

Temo pelo patrimônio ambiental, pelas conquistas das minorias, pela recrudescimento da violência, pela revolta dos silenciosos.
É que a pobreza, o desemprego, a miséria, a falta de saneamento, a falta de saúde, a inexistência de oportunidades para as minorias, o abandono dos incapazes, não afeta, não atinge, não incomoda, não motiva providências pelos representantes do capital. Para estes, somente importa o lucro!

Vamos andar para frente!

Com amor, serenidade e incluindo os mais necessitados, observando o movimento ardiloso do capital, que em tudo manda, haveremos de reconquistar uma paz e união social, pela maturidade que há de ser celebrada.

A sensação é de que voltaremos alguns séculos, para retomarmos um ponto perdido no passado (ponto de restauração)...se assim quer a sociedade, assim será...

Relembro a frase de Auguste Comte, resumindo o Positivismo:
"O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”

Lauro de Freitas,13 de maio de 2016
Caio Mário Vieira Marques